quinta-feira, 18 de outubro de 2007

Profundidade

Hoje ao almoço, lembrei-me de um filme particularmente estúpido, "The Stepford Wives", estava a almoçar quando entraram duas mulheres, foi impossível não reparar, sobretudo na loira, parecia uma cópia da personagem interpretada pela Nicole Kidman, uma espécie de boneca de porcelana, fina e bem pintada, uma espécie de mulher fabricada para ser perfeita, tudo no sítio certo, até a caixa da Hermés em cima da mesa com umas sabrinas que devem ter custado o dinheiro que ganho num mês, a voz fina e calculadamente alta para ser ouvida, para ser notada, dei por mim a olhar, boquiaberta, a pensar na profundidade daquela mulher e no cansaço que seria almoçar com ela, quanto mais viver com ela, dormir com ela, que homem suportaria anos de conversa sobre sabrinas e afins, será que teria de lhe pedir licença para estragar o penteado, e se ela se partisse, é possível, desconfiei que existisse tamanha paciência, mas logo a seguir, tive a certeza que existe e que não são assim tão raros os homens que escolhem este tipo de mulheres para esposa, no seu significado mais literal, para mãe dos seus filhos, são bonitas, bem-educadas, conhecem de cor as regras de etiqueta e devem ser óptimas na gestão do lar, das amorosas empregadas, resumindo, estas mulheres ficam sempre bem em qualquer lado, são cansativas é verdade, mas isso, em certas ocasiões, até pode ser visto como uma qualidade, nada como uma óptima bengala num 'cocktail' onde é sempre preciso fazer conversa sobre tudo e nada, no final, imagino que a utilidade deva compensar o esforço, até porque estes homens costumam ter mais que fazer, tanta ocupação, tanto trabalho, coitados, precisam é de decansar, chegar a casa e não ter que pensar em mais problemas, mas estas mulheres, sobretudo a loura, conseguiram ser notadas à entrada e à saída, a saída que ficou marcada pela ternura, a loira espreitou, por dentro das calças, para a lingerie da outra, aprovou, consegui perceber, e acho que até consegui ouvir que era de renda...

Bom

A minha filha ainda cabe no meu colo...

Quero mais

quarta-feira, 17 de outubro de 2007

Desassossego VI

«Sem querer, sinto que tenho estado a pensar na minha vida. Não dei por isso, mas assim foi. Julguei que somente via e ouvia, que não era mais, em todo este meu percurso ocioso, que um reflexor de imagens dadas, um biombo branco onde a realidade projecta cores e luz em vez de sombras. Mas era mais, sem que o soubesse. Era ainda a alma que se nega, e o meu próprio abstracto observar era uma negação ainda.»

Fernando Pessoa, Livro do Desassossego

terça-feira, 16 de outubro de 2007

Desassossego V

«Minha alma é uma orquestra oculta; não sei que instrumentos tange e range, cordas e harpas, timbales e tambores, dentro de mim. Só me conheço como sinfonia.»

Fernando Pessoa, Livro do Desassossego

Viver

Não é possível ter tudo o que se quer, também não se pode fazer tudo o que apetece, já tenho idade para perceber isso, não tenho é paciência para deixar de viver o que posso e me apetece.

Toca...

... mas ninguém fala... será chuva, será gente...

Leste

O exibicionismo, a leste de tudo, só a leste, de dançar no alto de uma coluna gigante...

Grande

Há coisas insignificantes que nos fazem sentir importantes na nossa absoluta irrelevância, coisas que não se contam, ou se se contam, não são capazes de prender a atenção dos outros, quanto muito, esboçam um sorriso, porque querem ser simpáticos, coisas que só interessam a quem as sente e, mesmo assim, muitas, acabam, mais tarde ou mais cedo, por deixar de ser importantes, mas, são estas pequenas coisas que nos fazem viver a pensar nas maiores.

segunda-feira, 15 de outubro de 2007

Curiosidade

Que destino lhe terá dado?

Irónica

Hoje, sinto-me um perfeito saco de boxe, feito para levar porrada de todos os lados, como o saco, lá ando, de um lado para o outro, à mercê dos murros que a vida guardou para despejar de uma só vez, quando menos se espera, vem sempre outro, mais forte, ou mais fraquito, mas vem sempre outro, a vantagem é que, como a porrada vem de tantos lados, não me concentro, vou alternando, sem encucar, sempre dá para desenjoar...

Recomeçar...

... a pensar no que verdadeiramente importa.

Contar

Contar a alguém que ama que, em determinado momento, mais do que um, o esquecimento e tantas outras coisas que não se explicam tomou conta das horas e as horas foram passadas com outra pessoa é duro, duro para quem conta e para quem ouve, também depende muito da forma como se conta, se se conta tudo, ou em parcelas, se se omite, ou se se exagera, depende também do objectivo com que se conta, mas, não há dúvida, o resultado é imprevisível...

domingo, 14 de outubro de 2007

Fotografia

"Quando é que foi a última vez que alguém tirou uma fotografia a uma pessoa que não existia?", li no meu livro, eu cá sei, eu sei quando foi a última vez que fotografei uma pessoa que não existe, tirei-a não há muito tempo, a fotografia, papel mate com margens, guardo-a no meu coração, entre folhas de papel fino, não a mostro a ninguém, será sempre minha, não a mostro porque não posso, mas, mesmo que pudesse não queria, aquela fotografia é só minha, de mais ninguém, não mostro, mas consigo descrevê-la, foi a fotografia mais colorida que alguma vez tirei, simples, a pessoa não existe, é verdade, mas não é por isso que deixa de ser bonita, apontei a a minha lente para os seus olhos, tão escuros e penetráveis, consegui entrar e ver como eram profundos, levaram-me por caminhos onde quase sufocava com a respiração, tinha que voltar a correr para trás, não que me faltasse o ar, eram os olhos, negros, que se queriam fechar, eles sim, tinham medo, mas aqueles olhos também viam, sentiam, devagar, devagar, às vezes, paravam, e era, então, que eu não conseguia parar de olhar para eles, parados, tão brilhantes, mesmo em cima de mim, quanto mais olhava para aqueles olhos, mais eu via, eu entrava para voltar a sair, às vezes, não conseguia deixar de sorrir, enternecida com o que via naqueles olhos doces, tão doces que tinham cheiro, forte, tinham sabor, intenso, estes olhos libertavam todos os meus sentidos, nem as minhas mãos se seguravam, também os tocaram, eu lembro-me bem, de passar os dedos, eram os meus dedos que sossegavam aqueles olhos, que os fechava...

Sou...

... uma mulher, não sou um anjo!

sábado, 13 de outubro de 2007

Os afectos não se disputam.

Surreal

Enquanto espero pelo pequeno-almoço no quarto, mordomias de hotel, vou recapitulando, com alguma dificuldade, foram poucas as horas dormidas, os episódios da noite anterior, nenhuma tragédia, mas uma sucessão de imprevistos [não me trouxeram croissants e o leite vem quente...] infelizes, recordo especialmente um, de olhar para o telemóvel e ver duas chamadas perdidas, recentes, da minha vizinha, a tantos milhares de quilómetros de distância, pensei, de imediato, que me tinham assaltado a casa, ou qualquer outra porcaria, toca de ligar, e eis senão quando, depois dos cumprimentos, rápidos, e de assegurar que a minha casa não tinha pegado fogo, ela me explica, na sua voz habitualmente calma, que me ligava, apesar de saber que estava a milhares de quilómetros, porque sabia, dizia a vizinha, que a felicidade da minha família, sobretudo, da minha filha, estava nas minhas mãos, e que gostava muito de nos ter aos 3 juntos como vizinhos. Nem queria acreditar, por um instante pensei que era efeito de um copo de vinho branco que tinha bebido ao jantar, respirei fundo, dei-me conta do ridículo, ia num táxi com mais três pessoas, entre um ruidoso Fratelli e o Hilton Hotel, então, na minha voz mais doce agradeci-lhe a atenção, várias vezes, de que serviria qualquer outra coisa, o que fazer quando, de repente, toda a gente se acha no direito de dar palpites sobre a vida alheia...

quinta-feira, 11 de outubro de 2007

A leste...

... na geografia e da realidade.

SPM

Nada a fazer, uma fatalidade, mas que me transforma no ser mais frágil à face deste mundo mundial, nos últimos dois meses, então, acordo com os olhos feitos em trambolhos, hoje, mal os conseguia abrir, enfim, o que me anima é que como vem, também vai.

terça-feira, 9 de outubro de 2007

Pra rua me levar

Filha II

Hoje, ao telefone, explicava à minha filha que a mamã ia hoje à noite, mas que depois faltava só quarta, quinta, sexta, sábado e que domingo voltava... ela fez-me uma festa de despedida... devo preocupar-me?

Farta


de burros, têm um ar meigo, são fofos, queridos, inspiram carinho, mas não aquecem, nem arrefecem, são lentos, param, e, nunca se sabe, quando menos se espera, podem vir os coices, por isto tudo, cansei-me, fartei-me, decidi pensar antes num animal mais feroz, aliás, quanto mais feroz, tanto melhor, assim, pelo menos, sei que posso sempre contar, no mínimo, com uma dolorosa dentada, também sei que não me posso distrair, nem deixar-me levar pelos seus olhos meigos, assim não me aproximo, conservo a prudente distância de segurança, já escolhi, vou começar pela bela pantera.

Fuga

Fazer malas e enfiar-me rapidamente no avião, fugir, deixar tudo para trás, e tentar esquecer algumas coisas que me vão dizendo para me entreter, para me empatar e que acabam por me desviar da minha nova forma de vida, não tenho pressa, nenhuma, mas vou gostar de saber como é que vou regressar...

Profissão

Existem os que foram feitos para amar, por mais que tentem, não conseguem viver sem procurar, a toda a hora e todo o instante, o amor, uma espécie de droga sem a qual não conseguem viver, «the lovers», a língua inglesa é exímia na sua definição, mesmo sem se darem conta, têm os sentidos em alerta vermelho, não escapa um, sempre em sentido, o objectivo, esse, está bem definido, é amar, uma profissão a tempo inteiro, diria que de alto risco, que os esfalfa, mas que os recompensa do vazio que sentem quando o coração adormece, estes, vivem tudo à flor da pele, o bom e o mau, sentem, tão simplesmente, emocionam-se, riem, choram, deixam-se embalar pela vida, é assim que conseguem viver, numa espécie de balancé, que ora sobe, ora desce, não depende só deles, de nada lhes serve uma tábua parada à custa de ter sempre os pés no chão, e depois, depois existem os que não amam, porque não sabem ou porque não querem, os que escolheram ser amados, que aprenderam a amar os que amam, e que, viciados no amor que recebem, retribuem com o que podem, uns com muito, outros com menos, nunca é amor porque disso não há, em alguns casos, a simples existência é suficiente para aliviar o dever da reciprocidade, é assim que concebem a vida, fazem-no com tanto ou mais profissionalismo que os outros, não amam e, por isso, também não sentem à flor da pele, mas também não querem, quando se juntam, um de cada, é difícil separá-los, tal só acontece se, por um acaso, o primeiro deixa de amar, e, lá está, como não sabe viver sem amor, num ápice, percebe que não lhe resta alternativa senão desatar a correr à procura do novo amor, já o que não ama, não treme, não está habituado a mexer-se, senta-se e espera, confiante, sempre foi assim, espera pelo próximo, entretanto, como não deu, mas recebeu, tem reservas, um saldo para ir gastando à medida das suas necessidades, eu não sei, mas arrisco, esta parece-me a combinação perfeita, afinal, cada um vive para o que nasceu, e, muito importante, arrisco eu, não se aleijam, desde que, isso é fundamental, nunca se desviem das suas vocações. Enfim, eu, no que me toca, estou naquela fase em que quero escolher, o direito a acreditar que posso, pelo menos tenho, tantos anos devem bastar, mas ainda não sei, não me decidi, sei muito bem qual é a minha vocação, mas também sei que me posso lixar para ela, fechá-la a sete chaves, não há tanta gente cansada a mudar de profissão, porque é que eu posso fazer o mesmo...

Frase do dia

«Todo o burro come palha, só é preciso saber dar-lha.»

segunda-feira, 8 de outubro de 2007

Escalada

Numca me aventurei nas alturas, tenho medo, mas hoje, sem saber ler nem escrever, dou por mim numa escalada frenética, subo todas as paredes que tenho em casa e nem preciso daquelas borrachinhas de apoio...

Escolha múltipla

1. Quem é que se aleijou?

a) «Não é porque o burro deu um coice que se lhe vai partir a perna.»

b) «O burro não deu um coice porque é que se lhe vai partir a perna.»

c) «Porque é que lhe deu um coice se o burro não vai partir a perna, afinal foi a perna do burro que se partiu e já anda algum por aí a dar coices ao burro.»

Não...

...consigo, há dias assim, não consigo, até gostava, estou há que tempos a olhar para este quadrado, mas não me sai uma palavra, uma que seja, não consigo dizer nada, com tanto para dizer, mas não sou capaz, o meu coração está num pingo, fechou, fez uma birra por causa de um burro e levou-me as palavras, eu amanhã já volto, quando o amuo deste meu caprichoso coração já tiver passado, eu entendo-o, ele é mole, tão mole, derrete-se por tudo, ficou triste, mas amanhã, depois de uma bela noite de sono, eu vou aconchegá-lo, ele vai acordar grande, enorme, e não me admiraria, já o vou conhecendo, que começasse o dia aos coices...

domingo, 7 de outubro de 2007

Desassossego IV

«Alguns têm na vida um grande sonho e faltam a esse sonho. Outros não têm na vida nenhum sonho, e faltam a esse também.»

Fernando Pessoa

Acabou

Chegou ao fim o meu prolongado fim-de-semana 'full-mother', hoje, depois da natação e de uma festa de aniversário de uma amiga, regressavamos a casa e num semáforo qualquer, sai-lhe esta pérola "-Estes gajes nunca mais aprendem que só dá para uma fila de carros!", ai, imprecaução de mãe, que sem se dar conta que está acompanhada, não evita desabafos impróprios.

Falta pouco

(...)
-E contigo, tudo bem? Nunca me contas como estás!!
- Comigo tudo bem. Bj
- Contigo está sempre tudo bem. Como é que consegues?
- Com criatividade.
- :-) beijos
- Beijos

Black session - Avalanche

Esquecimentos

Esqueci-me, tanto tempo com a mesma pessoa tem destas coisas, que os homens, detesto estas generalizações, a maioria dos homens não consegue entender que quando uma mulher pede colo, ou mimo, não quer necessariamente sexo, que lhe basta só um abraço, as mãos no cabelo e um sussurrar ao ouvido 'vai passar', afinal, não é para isso que servem os amigos, e que, mesmo que outras coisas já se tenham passado, aliás, por isso mesmo, porque outras coisas já se passaram, é possível que, desta vez, mais íntimos, até possam adormecer abraçados, mais nada, já me tinha esquecido, mas lembro-me agora que, há muitos anos, há tantos anos que já me tinha esquecido, isso me aconteceu, dormi agarrada a um amigo meu e que, quando contei, tão orgulhosa, me atiraram logo com um 'a sério! só pode ser maricas!', enfim, coisas que me vou lembrando e que me vão ser muito importantes nesta minha nova forma de vida.

sábado, 6 de outubro de 2007

Carências

É desconfortável, a palavra talvez não seja a melhor, mas é a que me ocorre e que me parece adequada, deixar de ter alguém que gostava, ainda gosta, mas para o caso pouco importa porque vai deixar de gostar, é uma questão de tempo, alguém que gostava de mim porque sim, alguém que se preocupava com as minhas tosses ou dores de cabeça...

Mudar

os meus 'usermanes' e 'passwords' de 13 anos, que já não fazem sentido, não que sinta necessidade, mas não deixa de ser estúpido atender o telemóvel, ou entrar no 'blog' com certas palavras, certo é que, também não tenho pressa e afinal, ainda nem sequer passaram três meses...

Não

sou, lamento, tu até podes pensar que sim, mas não, não sou um dos teus velhos amigos, nem sei se alguma vez serei, não sei se quero, mas se pensar que sim te faz feliz, calo-me, mas o meu silêncio, tu já o conheces, não costuma ser de consentimento.

Dias

Depois de um feriado em que tentei, tentei mas não consegui, disfrutar a 100% de um dia de filha, a consciência pesou, lá me deitei, sem colo, sem mimo, nem música consegui ouvir, apressei-me a fechar os olhos para dormir muito e tudo de seguida, um esforço que foi interrompido por um sms tardio, corri, importante mas nada de interessante, e voltei a concentrar-me em me convencer, ainda antes de adormecer, que estes altos e baixos fazem parte da vida, que, como tu dizias, todos os têm, lembrei-me de Pessoa e da sua lição de sabedoria extrema, de como sei que vai passar, que é normal sentir-me carente, afinal mudei a vida, que antes também não tinha o colo nem o mimo, apenas a imagem presente, demasiado presente, da sua existência, e dormi, dormi muito e tudo de seguida, até a minha filha me perguntar se já podia acordar, que querida, a minha filha ainda pergunta, e agora preparo-me para um dia de mãe, este já sei de antemão que também não vou disfrutar a 100%, a consciência pesará pouco e a minha filha ajudará a acalmar os ímpetos sufocantes da avó.

Duas semanas II

São só palavras, mais nada, as que me calharam desta vez, envio-tas para nada, para ti, porque estou cansada de falar comigo e porque sei que a ti não te pesam, porque sabes que eu não quero resposta, esta mensagem nem sequer existiu.

sexta-feira, 5 de outubro de 2007

Gosto V

«És demasiado cosmopolita para o meu provincianismo.»

Desassossego III

«Viver é ser outro. Nem sentir é possível se hoje se sente como ontem se sentiu: sentir hoje o mesmo que ontem não é sentir – é lembrar hoje o que se sentiu ontem, ser hoje o cadáver vivo do que ontem foi a vida perdida.

Apagar tudo do quadro de um dia para o outro, ser novo com cada nova madrugada, numa revirgindade perpétua da emoção – isto, e só isto, vale a pena ser ou ter, para ser ou ter o que imperfeitamente somos.»

Fernando Pessoa

Duas semanas I

«Há sempre os velhos amigos que assomam e que nos conseguem arrancar um sorriso.»

I'm Your Man

Há poucas pessoas que nos conseguem mostrar que a beleza existe e é verdadeira, Leonard Cohen fez, faz e fará sempre parte da minha vida. Acabei de ver o «I'm Your Man, 2005», mais uma vez, e voltei a sentir-me arrepiada. Obrigada.

quinta-feira, 4 de outubro de 2007

Não

consegui evitar e lembrei-me de um amor infinito e impossível...

Razão

Nestas coisas do coração, a razão já desistiu, já me deu como um caso perdido, já nem arrisca aparecer, ainda bem, eu fartei-me de a avisar e ela cansou-se, finalmente, de me tentar agarrar, bem sei, vem nos livros, os amigos avisam-me, na dose certa, a razão nunca fez mal a ninguém, mas não quero saber, tentei, mas não sei, o que quero é viver e sentir e isso, a razão não me dá, ela, é verdade, poderia poupar-me de algumas desilusões, sossegar o meu coração, mas tal como eu, também ele prefere continuar a bater...

Desassossego II

«Um regaço para chorar, mas um regaço enorme, sem forma, espaçoso como uma noite de verão, e contudo próximo, quente, feminino, ao pé de uma lareira qualquer... Poder ali chorar cousas impensáveis, falências que nem sei quais são, ternuras de cousas inexistentes, e grandes dúvidas arrepiadas de não sei que futuro...»

Fernando Pessoa

Não esquecer

de pagar as contas, de fechar as persianas, de levar o lixo, de ver o correio, de comprar leite e bolinhos de canela, de tantas coisas que não estava acostumada a fazer, mas que me fazem muita falta.

A caminho

das duas semanas, 'avec le temps tous'en vas'...

Nadas

que me sabem a muito, a 'Happy' e a 'Elle' à minha espera, para folhear e me entreter deitada no sofá da sala com uma mantinha fofa nos pés, sim, já tive que calçar meias para dormir, os meus pés continuam a demorar a aquecer.

Desassossego I

«Sinto-me constantemente numa véspera de dspertar, sofro-me o invólucro de mim mesmo, num abafamento de conclusões. De bom grado gritaria se a minha voz chegasse a qualquer parte. Mas há um grande sono comigo, e desloca-se de umas sensações para outras como uma sucessão de nuvens, das que deixam de diversas cores de sol e verde a relva meio ensombrada dos campos prolongados.»

«Sou como alguém que procura ao acaso, não sabendo onde foi oculto o objecto que lhe não disseram o que é. Jogamos às escondidas com ninguém. Há, algures, um subterfúgio transcendente, uma divindade fluida e só ouvida.»

Fernando Pessoa

quarta-feira, 3 de outubro de 2007

O tempo...

...é isto, apenas isto, é assim tão difícil de perceber...

Filha

Nunca me faltou, o colo da minha filha, o meu porto de abrigo, o meu amor, basta olhá-la enquanto dorme para me aperceber da irrelevância de tanta coisa, é este o lado egoísta da maternidade, saber que a única pessoa por quem sou capaz de dar a vida, sem hesitar, me aquece o coração quando eu preciso, sem eu ter que pedir, sem ela saber, ou sequer se esforçar, é ela que me faz enfrentar todos os riscos, porque ela existe, porque ela já existe, já não tenho medo de viver.

Tempo

Nem a natureza sabe o que quer.

terça-feira, 2 de outubro de 2007

Excesso de 'curriculum'

Como os que, insatisfeitos com uma simples licenciatura, fogem da vida profissional e coleccionam mestrados e doutoramentos, é assim que, agora, me sinto, como os que não conseguem encontrar um trabalho por excesso de habilitações, estava eu longe de imaginar que, alguma vez, seria capaz de assustar um coração, imprecaução minha, não me lembro de ter tido medo...

Missão

A missão do dia foi comprar o 'Cintura' dos Clã e o 'Livro do Desassossego' de Fernando Pessoa. Como me disse um dia um amigo meu, este é o livro para ter na mesa de cabeceira, para abrir ao calhas e ler, aquilo que sair servirá sempre para alguma coisa.

Testei esta sua teoria e hoje calhou-me na sorte: «Considerar a nossa maior angústia como um incidente sem importância, não só na vida do universo, mas na da nossa mesma alma, é o princípio da sabedoria. Considerar isto em pleno meio dessa angústia é a sabedoria inteira. No momento em que sofremos, parece que a dor humana é infinita. Mas nem a dor humana é infinita, pois nada há humano de infinito, nem a nossa dor vale mais que ser uma dor que nós temos».

O meu amigo está certo, continuarei a jogar esta roleta.

À venda

Hoje, vão espetar uma placa de vende-se na varanda da nossa casa, só espero que seja rápido, que encontre uma outra, linda, minha, para começar tudo de novo, com tanta vontade.

Certa

Tantas desculpas e juras de amor eterno para quê, cada vez me sinto mais aliviada, tomei a decisão certa, afinal, tudo está igual, alguns dias, pior, as cobranças, as acusações, tudo o que fazia parte da minha vida normal, mas boa, tudo o que quero que acabe e que vai acabar.

Urgência

Cansada de as puxar, de ter percebido que não há solução, no sábado, despi-as sem ter que as desabotoar, entrei pela loja dentro, experimentei todas as que gostei e comprei em série, a partir de amanhã, pelo menos as calças, deixarão de cair.

Um sonho...

...ou um pesadelo, acordei sobressaltada, tinhas enviado uma mensagem a contar-me que não tinhas aguentado, que, finalmente, ias fazer aquilo que há muito querias, meio incrédula, não sabia se se tratava de um sonho, até me levantei para ver o aparelho, sempre espetado na outra ponta do quarto para me despertar longe da cama, afinal tinha sido um sonho, voltei a adormecer, mas, antes, ainda me lembro de ter pensado que podia ter sido um pesadelo, deixa-te estar.

segunda-feira, 1 de outubro de 2007

Liberdade

para tanto, para tudo, para o que já me tinha esquecido, para chegar a casa às sete da manhã, saciada, para me sentir no dia seguinte, para ouvir as músicas da véspera e lembrar-me das tuas mãos no meu corpo e das palavras que sussurraste, de como me esqueci das horas, muitas, de como sossegámos e de como nos largámos, sem jeito, com um abraço apertado, que bom.

Tão longe...

cada vez mais longe, passou tão pouco tempo, como foi possível tanto entusiasmo, tanta ilusão, afinal tinhas razão quando me dizias que eras tão pouco no tanto que quero, tu sabias e eu não queria saber, não conseguia, preferia pensar que tinha encontrado, tão cedo, o tanto que quero, tinhas razão, já cansado das tuas ilusões, afinal eu nunca te quis, não te quero, agora é fácil perceber que tinhas razão...