domingo, 14 de outubro de 2007

Fotografia

"Quando é que foi a última vez que alguém tirou uma fotografia a uma pessoa que não existia?", li no meu livro, eu cá sei, eu sei quando foi a última vez que fotografei uma pessoa que não existe, tirei-a não há muito tempo, a fotografia, papel mate com margens, guardo-a no meu coração, entre folhas de papel fino, não a mostro a ninguém, será sempre minha, não a mostro porque não posso, mas, mesmo que pudesse não queria, aquela fotografia é só minha, de mais ninguém, não mostro, mas consigo descrevê-la, foi a fotografia mais colorida que alguma vez tirei, simples, a pessoa não existe, é verdade, mas não é por isso que deixa de ser bonita, apontei a a minha lente para os seus olhos, tão escuros e penetráveis, consegui entrar e ver como eram profundos, levaram-me por caminhos onde quase sufocava com a respiração, tinha que voltar a correr para trás, não que me faltasse o ar, eram os olhos, negros, que se queriam fechar, eles sim, tinham medo, mas aqueles olhos também viam, sentiam, devagar, devagar, às vezes, paravam, e era, então, que eu não conseguia parar de olhar para eles, parados, tão brilhantes, mesmo em cima de mim, quanto mais olhava para aqueles olhos, mais eu via, eu entrava para voltar a sair, às vezes, não conseguia deixar de sorrir, enternecida com o que via naqueles olhos doces, tão doces que tinham cheiro, forte, tinham sabor, intenso, estes olhos libertavam todos os meus sentidos, nem as minhas mãos se seguravam, também os tocaram, eu lembro-me bem, de passar os dedos, eram os meus dedos que sossegavam aqueles olhos, que os fechava...

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