sexta-feira, 14 de setembro de 2007

Uma carta I

A minha filha contou-me que todas as noites sonha com a Princesa Ariel e com a Úrsula, o Terror dos Mares, achei que lhe devia dizer para ela esquecer a mazona e sonhar só com a sereia, mas ela disse-me "Não faz mal mamã, no final do sonho, a Ariel vive feliz para sempre com o Príncipe Eric!", fiquei mais descansada e perguntei-lhe, só para fazer crescer a fantasia, como é que ela fazia para conseguir sonhar todas, mas mesmo todas, as noites com a Ariel, explicou-me que era muito fácil e ao mesmo tempo que falava fazia os gestos, "É assim, mamã, primeiro fecho os olhos com muita força e depois baralho o cérebro e penso muito, mas tem que ser muito, na Ariel, no fundo do mar, cheio de peixinhos e estrelas do mar e, ao mesmo tempo digo baixinho, Ariel, Ariel, Ariel..., até que adormeço e sonho", eu prometi-lhe que ia fazer igual e que, a partir de agora, as duas íamos sonhar todas as noites igual, agora todas as noites, depois de lhe dar um beijo e de a aconchegar, os desejos são sempre de bons sonhos de sereia, ela sonha, quase todas as noites, algumas deve sonhar com a Ariel, as crianças sabem, mas eu não sonho, ou se sonho não me lembro, a verdade é que também nunca experimentei fazer como ela me ensinou, porque será que os crescidos quase nunca ouvem os meninos?, não me parece justo e muito menos certo, poderia resultar, nunca se sabe, e se resultar?, deixa-me tentar, fechei os olhos e pensei com todas as forças que tinha, fechei bem os olhos e baixinho, como ela me ensinou, sussurrei o nome da sereia até adormecer e não é que funcionou, sonhei, sonhei que estava no fundo do mar, rodeada de peixinhos de todas as cores, de estrelas do mar e até de cavalos marinhos, e que, enquanto nadava, suavemente, no meio daquele mar brilhante me dei conta que se preparava para chegar uma tempestade, talvez tivesse sido obra da Úrsula, nadei mais rápido e espreitei, olhei para o céu escuro e adivinhei os raios e os trovões e vi também um barco que não teria como escapar, aproximei-me, sem medo, afinal, as tempestades nunca chegam ao fundo do mar, foi quando te vi, preocupado, um pouco assustado, a chuva começou a cair e em pouco tempo o céu ficou negro e a única luz era a dos raios, o teu barco, meio à deriva, esforçava-se por se manter à tona e tu, tu resistias como um herói, como um príncipe, gostei de ti, não sei bem porquê, afinal tinhas pernas, esquisito uma sereia gostar de um humano, se o meu pai Tritão soubesse, nunca iria deixar, mas, nessa altura, quando te vi em apuros nem sequer pensei no Rei dos Mares, subi e puxei-te e fui nadando até uma pequena praia onde te deitei e eu fiquei meio dentro, meio fora, a única forma de poder estar contigo até tu conseguires acordar, tinhas bebido muita água, esperei impaciente, fui cantando, talvez a minha voz te fizesse despertar mais depressa, até que, finalmente, abriste os olhos, devagar foste descobrindo tudo à tua volta, até que me viste, surpreendido, olhaste para a minha longa cauda, acho que pensaste que era um sonho porque te beliscaste, e eu aproximei-me, só um bocadinho, não podia deixar o mar, consegui chegar aos teus lábios e beijei-te, devagar, e tu, tu desceste até as tuas pernas ficarem dentro de água, foi ali, entre o mar e a areia que nos passámos a amar todos os dias e de todas as formas, mas um dia a Bruxa dos Mares, acabou com o nosso segredo, mandou os seus escravos destruir a nossa praia, a partir desse dia, deixei de gostar do mar, só pensava em ter pernas, mas eu sabia, apenas a magia do tridente do meu pai me podia ajudar, por isso, pedi-lhe, insisti, implorei e ele lá cedeu quando olhou para os meus olhos tristes e percebeu que sem ti não seria feliz, deu-me duas pernas ao mesmo tempo que me alertou para os perigos de me aproximar dos humanos, ele, disse-me, sabia que o amor dos homens às vezes dói, sobretudo, nas sereias, mas eu, com as minhas pernas, já nem ouvi, desatei a correr para o teu palácio, já só pensava em te beijar, quando lá cheguei, tal era o desejo de te ver, nem reparei em como era tudo tão diferente no teu mundo, que a tua casa não tinha a transparência e o colorido do fundo do mar, só parei ao pé de ti, para te beijar, os teus lábios, esses eram os mesmos, e tu olhaste para mim, mais uma vez, surpreso, beijaste-me, abraçaste-me, pegaste-me ao colo e perguntaste-me "Princesa Ariel, queres casar comigo?", eu, sereia do mar transformada em pessoa da terra subi ao céu, disse-te que sim e, afinal, afinal a minha filha tinha razão, vivemos os dois felizes para sempre. Quando acordei, lembrava-me do sonho, de todos os bocadinhos, se os contasse nunca mais acabava, e desatei a correr para o quarto da minha filha, "Filhota, a mamã conseguiu, fiz tudo como me ensinaste e sonhei com a Ariel, sabes que tinhas razão, a Úrsula também apareceu, mas no final, a sereia e o príncipe foram felizes para sempre!", a minha filha olhava para mim, sem saber se devia ou não acreditar, mas respondeu, fiquei com a sensação que também ela apenas me quis fazer crescer a fantasia, "Mamã, eu não te disse!", tinha razão a minha filha, afinal consigo sonhar, hoje vou experimentar outra vez...

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